Hélio Gueiros, o último “baratista” de sua geração

Publicado por Reinaldo Araujo em 26/08/2017 às 15h03

Polêmico, bebedeiro e fanfarrão, Gueiros marcou um tempo

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Da esquerda para direita, representantes locais do Moju e Acará, Ferrerinha (representante do ITERPA), Padre Máximo Bártoli e Didi Teixeira (prefeito do Moju), ao fundo Francisco Nazareno e o governador do Estado Hélio Gueiros, ao lado à direita, Agostinho Gouvêa (*).

A História não parou

Hélio Mota Teixeira Gueiros entrou na política em 1958, a convite do general Magalhães Barata. A irreverência e os discursos irônicos de Hélio Gueiros marcaram a política paraense dos anos 90. Hélio Gueiros foi deputado federal, senador de 1983 a 1987, governador do Pará de 1987 a 1990, e prefeito de Belém de 1993 a 1996.

Durante sua trajetória política, Hélio Gueiros ficou conhecido pelo apelido de “Papudinho”. Alguns de seus bordões ficaram marcados para sempre na história política paraense, como “Eu sou tarado por Doca” (na época da revitalização da avenida Visconde de Souza Franco) e “Tinindo” (referindo-se ao modo como gostava de trabalhar).

Além de professor, advogado e político, Hélio Gueiros também exerceu o jornalismo como profissão. Colunista do Diário do Pará, jornal no qual mantinha uma coluna aos domingos, Gueiros também foi redator e editor na Folha do Norte e durante a segunda fase de O Estado do Pará.

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Hélio Gueiros no início da carreira política

Na época da fundação do Diário do Pará, no início da década de 80, foi seu principal articulista. Ainda foi redator e apresentador do programa “Em Primeira Mão”, na TV Marajoara.

Gueiros começou na política como suplente de deputado estadual. Assumiu uma vaga entre 1958 e 1962. Em 1962, foi eleito deputado estadual, pelo PSD, chegando a líder do governo Aurélio do Carmo entre 1962 e 1964.

Com a instalação da Ditadura Militar, em 1964, Hélio Gueiros teve seu mandato cancelado. Elegeu-se deputado federal com a fundação do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), entre 1966 e 1970. Nesse último ano, teve seu mandato cancelado novamente e a suspensão dos seus direitos políticos. Além disso, Hélio Gueiros foi eleito para o senado federal em 1983, quando ainda era integrante do PMDB.

Hélio da Mota Teixeira Gueiros nasceu em Fortaleza no dia 12 de dezembro de 1925, filho de Antônio Teixeira Gueiros e Zoé Mota Gueiros. Seu pai foi deputado federal pelo Pará (1954-1959).

No pleito indireto de outubro de 1965, candidatou-se ao cargo de vice-governador na chapa encabeçada por Alexandre Zacarias de Assunção, da coligação entre o PSD e o Partido Republicano Trabalhista (PRT), que acabou derrotada por Alacid Nunes, candidato apoiado pela União Democrática Nacional (UDN).

Nas eleições de 1982, quando elegeu-se senador do Pará, na legenda do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Assumiu a sua cadeira no Senado em fevereiro de 1983.

O Pará no Colégio Eleitoral de 1985

No dia 15 de janeiro de 1985, no Colégio Eleitoral, votou no candidato oposicionista Tancredo Neves,eleito novo presidente da República pela Aliança Democrática, uma união do PMDB com a dissidência do PDS abrigada na Frente Liberal.

Contudo, por motivo de doença, Tancredo Neves não chegou a ser empossado na presidência, vindo a falecer em 21 de abril de1985. Seu substituto no cargo foi o vice José Sarney, que já vinha exercendo interinamente o cargo desde 15 de março deste ano.

Ainda em 1985, denunciou da tribuna do Senado a existência de uma trama para desmoralizar o então ministro da Reforma e do Desenvolvimento Agrário, Nélson Ribeiro, e, com isso, atrasar a implementação de uma reforma agrária.

Como representante do seu Estado, defendeu a reformulação do Imposto Único sobre Minerais, a restauração da importância da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), a valorização do Banco da Amazônia e um aumento de dotação orçamentária que garantissem a recuperação do desenvolvimento da região amazônica.

Nas questões internas do seu partido, defendeu a presença forte da bancada de senadores na executiva nacional. Em setembro, fez a defesa da eliminação da obrigatoriedade de diploma universitário para o exercício da profissão de jornalista.

A união: o início da aliança com Jader Barbalho

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À direita, no canto Hélio Gueiros e Jader Barbalho em comício

No pleito de novembro de 1986, elegeu-se governador do Pará, na legenda do PMDB, em coligação com o Partido Democrático Trabalhista (PDT), Partido Democrático Social (PDS), Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e o Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Durante a sua campanha, prometeu priorizar as áreas de educação e agricultura, e dar continuidade a projetos de eletrificação e de saneamento. Ainda em novembro, manifestou-se favorável à suspensão temporária do pagamento da dívida externa e defendeu o mandato de seis anos para o então presidente José Sarney, caso este assim o desejasse.

Em março de 1987, deixou o Senado e foi empossado governador, sucedendo ao seu correligionário Jáder Barbalho. No Senado, Juntamente com outros sete governadores que compunham o chamado “bloco da Amazônia”, assinou a Carta de Cuiabá que reivindicava do governo federal o aumento da participação dos Estados da Amazônia no orçamento nacional, a descentralização da reforma agrária, a construção da ferrovia Norte-Sul e a revogação do decreto que transformava as terras às margens das rodovias federais em propriedade da União.

Posições polêmicas no cenário nacional em defesa do Pará

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Gueiros, como governador do Estado, posicionou-se contra a possibilidade de mudança da forma de governo presidencialista e contra a redivisão territorial prevista no anteprojeto de Constituição apresentado pela Comissão de Sistematização da ANC.

Em outubro de 1987, reagiu prontamente ao projeto da Comissão de Energia Nuclear de transferir para o sul do Pará os rejeitos de um acidente radioativo ocorrido em Goiânia e conseguiu que ele não se efetuasse.

Em janeiro de 1988, negou que tivesse acontecido um massacre de garimpeiros de Serra Pelada pela polícia militar do seu estado em dezembro do ano anterior, conforme denúncia divulgada pela imprensa. Resistiu à abertura de inquérito da Polícia Federal para averiguar o caso e não deu explicação alguma para as mortes.

A discórdia: começa o fim da aliança com Jader Barbalho

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Em fins de 1988, exigiu que todos os ocupantes de secretarias estaduais pusessem os cargos à disposição e, no início de 1989, demitiu a metade do seu secretariado, muitos haviam sido indicados para o cargo pelo ex-governador e então ministro da Previdência Social, Jáder Barbalho.

Ainda em 1989, foi contrário à realização de um encontro de nações indígenas, em Altamira (PA), por elas se oporem à instalação da hidrelétrica de Cararaô no rio Xingu. Criticou diretamente o presidente José Sarney, chamando-o de traidor, devido à intervenção do governo federal na Sudam e no Banpará e da extinção da Empresa de Navegação da Amazônia (Enasa).

No ano seguinte (1990), o PMDB paraense decidiu, por unanimidade, expulsá-lo do partido por seu apoio ao candidato ao governo do Estado, o ex-prefeito de Belém, Said Xerfan, concorrente pela coligação composta pelo Partido da Frente Liberal (PFL), PTB, PDS e PRN, que tinha o apoio do presidente Collor. Said Xerfan acabou sendo derrotado por Jáder Barbalho, do PMDB, que o sucedeu no governo do Estado em janeiro de 1991.

Eleições Diretas de 1989

Com a proximidade das eleições presidenciais, pressionou os prefeitos dos municípios paraenses e os deputados estaduais do PMDB para que se envolvessem ativamente com a candidatura do deputado federal Ulisses Guimarães. Durante o seu atribulado governo, o seu correligionário e presidente da Câmara dos Deputados, o deputado cearense Paes de Andrade, encaminhou ao ministro da Justiça uma denúncia de conivência do governador com os desmandos da polícia estadual.

Essa denúncia foi elaborada por uma comissão suprapartidária de 20 deputados. Também enfrentou a tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF) de um pedido de intervenção federal no Pará, apresentado pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Definidos os candidatos que participariam do segundo turno da eleição presidencial, declarou apoio a Fernando Collor de Melo, candidato do Partido da Reconstrução Nacional (PRN). Com a vitória deste em dezembro de 1989, defendeu a renúncia da executiva do PMDB que decidira fazer oposição ao futuro governo e expulsar os integrantes que apoiaram o presidente eleito.

O “papudinho” chega à Prefeitura de Belém

No pleito de outubro de 1992, elegeu-se pelo PFL prefeito de Belém, tomando posse no dia 1º de janeiro seguinte. Entre as suas principais realizações destacam-se a construção e instalação do Terminal Pesqueiro, na baía de Guajará, a implantação do Serviço 192-Urgente, dedicado à assistência pré-hospitalar, a criação e construção da Escola Bosque, especializada em educação ambiental, a restauração do palácio Antônio Lemos, a informatização dos órgãos da Prefeitura e o desenvolvimento de um programa de saneamento.

Concluiu seu mandato em 31 de dezembro de 1996, sendo substituído por Edmílson Rodrigues, do Partido dos Trabalhadores (PT). Ao deixar a prefeitura, foi eleito presidente do PFL no Pará.

Disputou uma vaga no Senado em outubro de 1998, pela legenda do PFL. Em junho de 2000, Hélio Gueiros ainda exercia a presidência do PFL no Pará. Filiando-se ao PMDB, concorreu ao mandato de deputado federal no ano de 2002 e não obteve sucesso na disputa.  Dois anos depois, candidatou-se à prefeitura de Belém e acabou na terceira colocação, tendo recebido 9,24% dos votos. A eleição foi decidida no segundo turno, dando a vitória ao candidato Duciomar Gomes da Costa, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

Hélio Gueiros foi casado com Teresinha Morais Gueiros, com quem teve cinco filhos, um dos quais, Hélio Gueiros Júnior, foi vice-governador de Almir Gabriel em seu primeiro governo (1995-1999), chegando a substituí-lo por alguns dias em 1997.

Faleceu em Belém em 15 de abril de 2011, pondo fim ao último “baratista” em atividade política no Estado do Pará.

 

(*) Foto encontrada em:

PRADO, Francisca Ramos. O Mito da cidade provisória: natureza, migração e conflito social em Tailândia (1977-2000). 2006. 152 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Pará, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Belém, 2006. Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia.

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