O Golpe Militar e a política no Pará

Publicado por Reinaldo Araujo em 20/08/2017 às 11h38

Alacid Nunes e o julgamento da História

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Governador-coronel Alacid da Silva Nunes

Alacid da Silva Nunes (1924-1915) dos militares paraenses que se destacaram na política depois do Golpe Militar foi o que participou mais ativamente do movimento de 31 de março de 1964 até o processo de democratização da política no Estado do Pará, em 1983.

Morreu em 5 de setembro de 2015, de infarto agudo, aos 90 anos, de forma discreta sem grandes homenagens de estatista.

No entanto, o coronel Alacid, morreu sem desfrutar dos benefícios do apoio dado a Jader Barbalho, em 1983, que lhe deviam proporcionar. Ao invés disso, acabou por contribuiu para o surgimento de um “neobaratismo” em contra passo com seu tempo, com o fortalecimento do preterido de Jader a sua sucessão, o ex-senador cassado durante o regime militar, Hélio da Motta Gueiros.

Um coronel do Exercito que demonstrou habilidade na poítica

Porém, não podemos, no entanto, deixar de destacar Alacid da Silva Nunes como uma referência política do Estado do Pará durante o Regime Militar. Em sua estréia na política paraense, o coronel foi eleito prefeito de Belém pela Câmara Municipal, de forma indireta, em junho de 1964, em virtude da cassação do mandato de Luís Geolás de Moura Carvalho.

Foi também em outubro do mesmo ano, que se candidatou ao Governo do Estado, com amplo apoio de vários partidos, incluindo entre eles o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e a antiga União Democrática Nacional (UDN), que mais tarde viria a se transformar em Aliança Renovadora Nacional (Arena), tendo derrotado Alexandre Zacarias de Assunção, da coligação entre o Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Republicano Trabalhista (PRT).

Com a extinção dos partidos políticos pelo Ato Institucional nº 2, em 27 de outubro de 1965, e a posterior implantação do bipartidarismo, filiou-se à Arena, partido de sustentação do regime militar.

A figura de “homem mau”  que Alacid tinha, se combinava com o dono de uma votação que lhe era própria e legitimava a formação de seu novo grupo político, os “alacidistas”, e em aliança com os adeptos de Jarbas Passarinho, os “jarbistas”. Esses grupos subiram ao poder derrubando do topo os “baratistas”. O golpe militar de 1964 permitiu que o tenente-coronel Jarbas Passarinho e o major Alacid Nunes saltassem de uma posição intermediária na tropa para o comando da política no Pará, comandando esse por mais de duas décadas

O então tenente-coronel da reserva, Alacid Nunes foi empossado Governador do Pará, em janeiro de 1966, substituindo o coronel Jarbas Passarinho que se tornou Ministro da Educação, muito conhecido pelo Movimento Estudantil e pela UNE na época pelo apoio ao projeto privatista da educação MEC-USAD e a repressão aos estudantes nas universidades.

Abertura lenta e gradual

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Presidente-almirante Ernesto Geisel (1907-1996)

A emenda nº 1 da Constituição de 1967 modificou a forma de escolha do presidente. Nela, previa-se a criação de um Colégio Eleitoral, composto de membros do Congresso e delegados das Assembléias Legislativas dos Estados. O almirante Ernesto Geisel foi o primeiro presidente escolhido pelo Colégio Eleitoral. Eleito em janeiro de 1974, tomou posse em 15 de março de mesmo ano.

Com a mudança de presidente militar, o governo central começou a travar nos bastidores uma luta contra a linha-dura. Ao mesmo tempo, permitiu que as eleições legislativas de novembro de 1974 se realizassem em um clima de relativa liberdade, com acesso dos partidos ao rádio e à televisão.

Esperava-se um triunfo fácil da Arena, que seria realçado pelo fato de o MDB ter sido autorizado a se expressar, mas os resultados eleitorais surpreenderam na época Geisel.

Nessas eleições, Alacid Nunes foi eleito deputado federal mais votado do Pará, concorrendo na legenda da Arena.

Governador preocupado com o desenvolvimento do Pará

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Obras da Hidretrica de Tucuruí

Dentro da política de abertura lenta e gradual prometida por Geisel e confirmada por João Figueiredo, seu sucesso, ao candidatar-se para o governo do Pará no pleito indireto de 1978, declarou-se favorável à anistia para crimes ideológicos, afirmando ainda que daria prioridade à agricultura, à saúde e à educação, além de apoiar a exploração racional da floresta amazônica.

Foi em seu governo que Alacid Nunes sagrou-se junto ao governo federal como um “pioneiro do desenvolvimentismo na Amazônia”, com as obras da Hidrelétrica de Tucuruí, da Serra do Carajás e o surgimento do garimpo de Serra Pelada, no sul do Pará. Em Tailândia o governador Alacid Nunes é lembrado pela preocupação com a pacificação da região, implantando na pequena vila um posto do Instituto de Terras do Pará (ITERPA).

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Governador coronel Alacid Nunes em visita à Vila de Tailândia do Acará - 1978

A ruptura com Jarbas Passarinho e a aproximação com o PMDB

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Com a extinção do bipartidarismo em novembro do mesmo ano e a consequente reformulação partidária, filiou-se ao Partido Democrático Social (PDS).

Em março de 1981, após longo período de desentendimento com o senador paraense Jarbas Passarinho, declarou-se rompido com este e passou a estimular a transferência de seus correligionários para a sigla do novo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), embora se afirmando desligado de qualquer partido. Em agosto de 1981, o mesmo grupo vinculou-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).

No ostracismo político desde que deixou o PDS, tentou uma reaproximação com o governo federal, com o presidente João Figueiredo, indicando, em fevereiro de 1983, o empresário Sahid Xerfan, amigo do general Euclides Figueiredo, irmão do presidente, para ocupar a prefeitura de Belém.

Concluindo o mandato de governador em março de 1983, foi substituído por Jáder Barbalho, do PMDB, na primeira eleição direta para governador do Estado. Alacid nunes ainda teve papel importante na coordenação da campanha vitoriosa do candidato do PDS, Sahid Xerfan, à prefeitura de Belém, nas eleições de novembro de 1988.

Em outubro de 1990, lança a sua candidatura vitoriosa a deputado federal, agora na legenda do Partido da Frente Liberal (PFL).

Nessa época, Jarbas Passarinho já tinha então no seu currículo uma participação assinalável na política nacional, que faltava a Alacid. Mas ambos foram impulsionados pela força das armas, formaram seu próprio capital de votos, sem deixar de aproveitar as oportunidades que ainda tiveram graças às ferramentas excepcionais da ditadura.

Em 1982, Alacid e Jarbas Passarinho, mediram forças, cada um à sua maneira: Passarinho, com a força federal; Alacid, com a máquina estadual.

Apoio que lhe custou o fim de uma ativa vida política

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Jader Barbalho e Alacid Nunes

Cabe, no entanto, ressaltar que é fruto da desatenção creditar a Alacid o protagonismo da abertura à democracia no Estado do Pará. Ele só veio a apoiar Jader Barbalho ao governo do Estado, contra o empresário Oziel Carneiro, para derrotar o antigo correligionário, que se tornou seu maior inimigo. Com esse apoio, Alacid achava que voltaria ao poder com apoio do jovem Jader, mas esse tinha contas a acertar do passado e descartou o aliado essencial, tão logo pôde, como vimos no início desse artigo.

Assim, os últimos suspiros dados pelo que sobrou das lideranças políticas do Regime Militar somente iam acontecer, com a derrota de Jarbas Passarinho ao governo do Pará pelo PPR, em 1994 derrotado por Almir Gabriel.

Em 2016, com a morte de Jarbas Passarinho (1920 - 2016), podemos decretar o fim de um ciclo político muito educativo aos que se aventuram na política no Estado do Pará.

Para ser político não precisa apenas querer ser político. Para ser político deve ser ter a vontade de aprender, ser duro, saber fazer auto crítica e recuar. Por isso não foi a toa que esses dois referenciais da política do Pará devem ser estudados, coisa que a historiografia paraense ainda deixa a desejar.

 

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